Mobilidade
Quando o motorista assume os custos, os riscos e a conta da operação
Move Lages · 28 de agosto de 2026 · 6 min de leitura

O modelo que transformou o motorista no responsável pela estrutura do negócio
Uber e 99 revolucionaram a mobilidade urbana. Com poucos toques no celular, o passageiro solicita uma corrida, encontra um motorista e chega ao destino.
Por trás dessa aparente simplicidade, porém, existe uma questão que precisa ser discutida com mais profundidade: quem realmente assume os custos e os riscos necessários para que cada corrida aconteça?
O aplicativo fornece a tecnologia, conecta passageiros e motoristas, calcula rotas, define preços e organiza a oferta e a demanda. Mas quem coloca o veículo na rua é o motorista.
É ele quem compra ou financia o carro.
É ele quem paga o combustível.
É ele quem arca com pneus, óleo, manutenção, seguro, documentação, impostos e limpeza.
É ele quem suporta a desvalorização do veículo provocada pelo elevado número de quilômetros rodados.
E é ele quem está fisicamente exposto ao trânsito durante horas.
Essa distribuição de responsabilidades levanta uma pergunta importante: até que ponto o modelo de trabalho por plataformas transfere para o trabalhador os custos e riscos necessários para manter o serviço funcionando?
O carro é do motorista. O combustível também.
Imagine uma corrida de R$ 20.
Para o passageiro, o valor parece simples: ele paga R$ 20 e chega ao destino.
Para o motorista, entretanto, aqueles R$ 20 não representam necessariamente R$ 20 de remuneração.
Antes de saber quanto realmente ganhou, ele precisa descontar combustível, manutenção, pneus, óleo, depreciação do veículo, seguro, impostos e outros custos.
E existe ainda um custo frequentemente ignorado: o tempo em que o motorista permanece conectado sem passageiro.
O motorista pode rodar quilômetros até buscar alguém, ficar parado aguardando chamadas ou retornar vazio depois de deixar um passageiro.
O aplicativo contabiliza a corrida. O motorista contabiliza a operação inteira.
E quando ocorre um acidente?
Existe outro aspecto ainda mais delicado: o risco.
O motorista está diariamente exposto a acidentes de trânsito, congestionamentos, assaltos, problemas mecânicos, danos ao veículo e outros perigos inerentes à atividade.
Se ocorrer uma colisão, o carro não é da Uber.
Também não é da 99.
Na maioria dos casos, o patrimônio colocado diretamente na rua pertence ao próprio motorista.
Isso significa que o trabalhador não está apenas oferecendo sua força de trabalho. Ele está colocando o próprio patrimônio em funcionamento para produzir receita dentro da plataforma.
Em situações mais graves, o risco pode envolver lesões, afastamento do trabalho e até morte.
Por isso, a discussão sobre a chamada “uberização” não deveria se limitar à pergunta sobre quanto o motorista recebe por corrida.
A pergunta deveria ser:
quanto custa para realizar aquela corrida e quem assume o risco de realizá-la?
A conta que não aparece no aplicativo
Um dos problemas do debate sobre remuneração é olhar apenas para o valor bruto recebido.
Se uma corrida paga R$ 30, por exemplo, o motorista não necessariamente “ganhou R$ 30”.
Parte desse valor precisa financiar a própria estrutura que permite que ele continue trabalhando.
Combustível.
Pneus.
Manutenção.
Depreciação.
Seguro.
Documentação.
Impostos.
Lavagem.
Financiamento do veículo.
E, principalmente, o próprio tempo de trabalho.
É possível, portanto, que uma corrida aparentemente rentável tenha uma margem muito menor quando todos os custos são contabilizados.
O risco econômico também é transferido
Existe ainda um risco menos visível: o risco de o motorista investir milhares de reais em um veículo para trabalhar sem possuir garantia de demanda.
O carro precisa estar disponível.
O financiamento precisa ser pago.
O combustível precisa ser comprado.
A manutenção precisa ser realizada.
Mas não existe garantia de que o motorista conseguirá realizar uma quantidade suficiente de corridas para cobrir esses custos.
Esse problema ganhou ainda mais relevância em 2026, quando o governo federal criou mecanismos de financiamento voltados aos motoristas de aplicativos, reconhecendo na prática que o veículo é um dos principais instrumentos de trabalho dessa categoria.
O debate chegou ao Supremo Tribunal Federal
Não por acaso, a relação entre motoristas e plataformas está no centro de um dos grandes debates trabalhistas do país.
O STF analisa o Tema 1291, que discute justamente o reconhecimento — ou não — de vínculo empregatício entre motoristas de aplicativos e as empresas administradoras das plataformas.
O debate envolve uma questão fundamental: o motorista é realmente um trabalhador autônomo com plena liberdade econômica ou existe uma relação de dependência e controle exercida pela plataforma?
Esse questionamento ganha força quando se observa que elementos fundamentais da atividade podem ser determinados pela plataforma, como preços, distribuição das corridas e regras de funcionamento, enquanto o motorista permanece responsável por grande parte dos custos físicos da operação.
Tecnologia não elimina o trabalho
É importante reconhecer que Uber e 99 também possuem custos.
São empresas de tecnologia que precisam manter aplicativos, servidores, sistemas de pagamento, equipes, segurança digital, atendimento, marketing e outras estruturas.
Portanto, não é correto dizer literalmente que as plataformas “não têm custo”.
A questão é outra.
Quem suporta os custos diretamente relacionados à realização de cada corrida?
Nesse ponto, o motorista assume uma parcela enorme da estrutura operacional.
A plataforma pode funcionar sem possuir uma frota própria de milhões de carros.
O motorista, porém, precisa possuir ou financiar um veículo para prestar o serviço.
Essa característica é uma das grandes vantagens econômicas do modelo de plataforma: a empresa consegue ampliar sua capacidade de atendimento utilizando uma enorme rede de trabalhadores que disponibilizam seus próprios ativos.
Quando o sucesso da plataforma depende do patrimônio do trabalhador
O modelo pode ser visto como uma espécie de terceirização da estrutura operacional.
A empresa fornece a plataforma.
O motorista fornece o veículo.
A empresa conecta oferta e demanda.
O motorista fornece combustível.
A empresa estabelece regras e parâmetros da plataforma.
O motorista assume o desgaste físico e financeiro da atividade.
A empresa ganha escala sem precisar possuir uma frota equivalente ao tamanho da sua operação.
E o motorista precisa manter seu patrimônio funcionando para continuar tendo acesso à renda.
É justamente essa divisão que precisa ser discutida.
Não é apenas sobre “ser empregado”
A discussão não deveria ser reduzida a Uber contra motorista ou empresa contra trabalhador.
A questão é muito maior.
É sobre como os custos, riscos e responsabilidades são distribuídos na economia das plataformas digitais.
Se o motorista é considerado verdadeiramente autônomo, é necessário discutir se ele possui condições econômicas reais para negociar sua remuneração e absorver todos esses custos.
Se a plataforma exerce influência significativa sobre preços, acesso às corridas, avaliação, bloqueios e funcionamento da atividade, também é legítimo questionar onde termina a autonomia e começa o controle.
O próprio debate jurídico atual reconhece que essa é uma das questões centrais da chamada “subordinação algorítmica”.
Quem paga a conta?
No fim, a pergunta mais importante talvez seja simples:
Quem paga para que uma corrida aconteça?
O passageiro paga pela viagem.
A plataforma monetiza a intermediação e a operação tecnológica.
E o motorista coloca na rua o veículo, o combustível, o tempo, o patrimônio e, sobretudo, sua própria segurança.
Por isso, discutir o futuro da Uberização exige olhar para além do valor mostrado na tela.
É preciso calcular o custo real da corrida.
É preciso considerar a depreciação do veículo.
É preciso considerar o tempo não remunerado entre as corridas.
É preciso considerar os riscos de acidentes e violência.
É preciso considerar o impacto de uma doença ou afastamento sobre a renda.
E é preciso perguntar se uma atividade economicamente essencial para as plataformas pode continuar funcionando quando uma parcela tão significativa dos seus custos e riscos é colocada sobre quem está na direção.
A tecnologia pode ter criado uma nova forma de conectar passageiros e motoristas. Mas quem está pagando a conta da operação continua sendo, em grande medida, quem está atrás do volante.